1.11.11

Feche a boca e abra os braços

Ontem estava conversando com dois dos meus chefes sobre filmes, a caminho de uma reunião. Um deles comentou sobre um filme muito criticado "A árvore da vida". Em resumo o filme tem 3h e ele achou que a parte do meio faz o filme todo valer a pena, porque mostra como situações as vezes banais e cotidianas influenciam na formação da personalidade das crianças e em que tipo de adulto elas se tornaram quando crescerem. 

Aí hoje eu recebi um texto lindo do meu amigo querido Daniel Pels, que me lembrou a conversa de ontem. E me vi ali naquele texto,  em algumas daquelas situações. E pensei que a gente pode até se esforçar pra ser melhor a cada dia sem filhos, mas com eles se torna quase uma obrigação. E o texto se fez lição. Espero nunca esquecer (ou ao menos, lembrar com frequência).

Ok.Chega de blá-blá-blá: lê aí.

Uma amiga ligou com notícias perturbadoras: a filha solteira estava grávida.

Relatou a cena terrível ocorrida no momento em que a filha finalmente contou a ela e ao marido sobre a gravidez. Houve acusações e recriminações, variações sobre o tema "Como pôde fazer isso conosco?" Meu coração doeu por todos: pelos pais que se sentiam traídos e pela filha que se envolveu numa situação complicada como aquela. Será que eu poderia ajudar, servir de ponte entre as duas partes?

Fiquei tão arrasada com a situação que fiz o que faço – com alguma frequência – quando não consigo pensar com clareza: liguei para minha mãe. Ela me lembrou de algo que sempre a ouvi dizer. Imediatamente, escrevi um bilhete para minha amiga, compartilhando o conselho de minha mãe: "Quando uma criança está em apuros, feche a boca e abra os braços."

Tentei seguir o mesmo conselho na criação de meus filhos. Tendo tido cinco em seis anos, é claro que nem sempre conseguia. Tenho uma boca enorme e uma paciência minúscula.

Lembro-me de quando Kim, a mais velha, estava com quatro anos e derrubou o abajur de seu quarto. Depois de me certificar de que não estava machucada, me lancei numa invectiva sobre aquele abajur ser uma antiguidade, sobre estar em nossa família há três gerações, sobre ela precisar ter mais cuidado e como foi que aquilo tinha acontecido – e só então percebi o pavor estampado em seu rosto. Os olhos estavam arregalados, o lábio tremia. Então me lembrei das palavras de minha mãe. Parei no meio da frase e abri os braços.

Kim correu para eles dizendo:

– Desculpa... Desculpa – repetia, entre soluços. Nos sentamos em sua cama, abraçadas, nos embalando. Eu me sentia péssima por tê-la assustado e por fazê-la crer, até mesmo por um segundo, que aquele abajur era mais valioso para mim do que ela.

– Eu também sinto muito, Kim – disse quando ela se acalmou o bastante para conseguir me ouvir. - Gente é mais importante do que abajures. Ainda bem que você não se cortou.

Felizmente, ela me perdoou. O incidente do abajur não deixou marcas perenes. Mas o episódio me ensinou que é melhor segurar a língua do que tentar voltar atrás após um momento de fúria, medo, desapontamento ou frustração.

Quando meus filhos eram adolescentes – todos os cinco ao mesmo tempo – me deram inúmeros outros motivos para colocar a sabedoria de minha mãe em prática: problemas com amigos, o desejo de ser popular, não ter par para ir ao baile da escola, multas de trânsito, experimentos de ciência malsucedidos e ficar em recuperação. Confesso, sem pudores, que seguir o conselho de minha mãe não era a primeira coisa que me passava pela mente quando um professor ou diretor telefonava da escola. Depois de ir buscar o infrator da vez, a conversa do carro era, algumas vezes, ruidosa e unilateral.

Entretanto, nas ocasiões em que me lembrava da técnica de mamãe, eu não precisava voltar atrás no meu mordaz sarcasmo, me desculpar por suposições errôneas ou suspender castigos muito pouco razoáveis. É impressionante como a gente acaba sabendo muito mais da história e da motivação por trás dela quando está abraçando uma criança, mesmo uma criança num corpo adulto. Quando eu segurava a língua, acabava ouvindo meus filhos falarem de seus medos, de sua raiva, de culpas e arrependimentos. Não ficavam na defensiva porque eu não os estava acusando de coisa alguma. Podiam admitir que estavam errados sabendo que eram amados, apesar de tudo. Dava para trabalharmos com "o que você acha que devemos fazer agora", em vez de ficarmos presos a "como foi que a gente veio parar aqui?"

Meus filhos hoje estão crescidos, a maioria já constituiu a própria família. Um deles veio me ver há alguns meses e disse "Mãe, cometi uma idiotice..."

Depois de um abraço, nos sentamos à mesa da cozinha. Escutei e me limitei a assentir com a cabeça durante quase uma hora enquanto aquela criança maravilhosa passava o seu problema por uma peneira. Quando nos levantamos, recebi um abraço de urso que quase esmagou os meus pulmões.

– Obrigado, mãe. Sabia que você me ajudaria a resolver isto.

É incrível como pareço inteligente quando fecho a boca e abro os braços.
Diane C. Perrone
Histórias para aquecer o coração das mães
Jack Canfield, Mark Victor Hansen e outros



5 comentários:

Ich, Hausfrau disse...

Oi mãe da Laís, tudo bem? Estava passeando por aí e achei seu blog! Adorei o texto... devemos mesmo aprender a ficar mais calados, saber ouvir mais e dar mais amor e carinho para as pessoas que estão ao nosso redor! Abs e boa semana

Carolina Esteves Lima disse...

O Daniel me mandou esse texto também. É lindíssimo mesmo!

Vivi disse...

Cadê o botão de mega-curti???

Realmente qdo nos tornamos mães temos que nos policiar o tempo todo e sempre pensarmos sobre nossas ações.

Adorei!

Futura mãmã disse...

Oi..
Vim visitar e me deparei com este texto super legal...
Rs quase me caiu a lagrima e nao sou facil de chorar tanto quanto isso...Mas custa.me ver que a minha mae nunca me abriu os braços e somente a boca..
Beijo

gabriela disse...

estou chorando.
acho que foi o post mais incrível que li em muito tempo.
tomo a liberdade de colocar o link dele no meu blog, ok? se preferir, me avise e eu o remorei.

bjbjbj

http://maeporacaso.spaceblog.com.br/